A bibliotecária - conto

22:58

Era apenas mais um dia comum na vida da bibliotecária loira da biblioteca da rua dos Alfineiros, as mesmas tarefas de sempre. Organizar os livros, espanar o pó, etiquetar os livros e preencher fichas de inscrição. Pareciam dias que a bibliotecária não deixava seu local de trabalho. O mais estranho de tudo, é que as pessoas simplesmente pararam de falar com ela. Está certo que ela sempre foi um tanto ranziza, entendeu que talvez estivessem tentando lhe aplicar uma lição. Pois que tentassem, ela tem seus motivos. A mulher que tem por volta dos seus 38 anos continuou suas tarefas, cantarolando em sua cabeça a música magnificamente interminável, “faroeste Caboclo”.

No momento que estava colocando um dos seus livros prefiridos na seção correta, que encontrou o primeiro bilhete. O primeiro dos seis, que ela receberia durante a semana. Olhou intrigada para o pedaço amarelo de papel, o desdobrou e leu o conteúdo que estava escrito com uma letra extremamente bem desenhada, parecia desenho de artista. Um sorriso de reconhecimento passou pelo seu rosto, ao perceber de quem era a carta. O conteúdo era simples mas acalentou seu coração naquele dia fatídico. “Eu sei que as tarefas parecem não terminar, tudo está repetitivo, mas você é a melhor bibliotecária que esse lugar já teve”. Logo abaixo vinha sua assinatura.
A mulher dobrou o papel em quatro partes e guardou no bolso de seu Blazer preto. Sentia saudades de uma mudança de roupa. Foi em busca de comida, porque deveria estar com fome, mas estranhemente não estava. Se pos então, a trabalhar mais um bocado. Era por volta das 16 horas quando de trás de uma pilha de livros esbravejou:
-Parece que esse dia nunca termina, só queria poder ir embora.
No segundo dia, a loira estava preenchendo fichas de afiliados na biblioteca, quando no meio dos papéis apareceu o segundo bilhete. “Você está realmente bonita, mas sua cara está um pouco pálida, venha dar uma volta comigo, o sol está lindo”. Ela bem se sentiu tentada, o pensamento passou por seus olhos durante um instante, mas deixou de lado. Guardou o bilhete no seu Blazer preto e continuo preenchendo informações de estranhos, o trabalho era mais importante agora. Era terça – feira, isso quer dizer que provavelmente chegariam livros novos, a ideia a deixava feliz de mais. Por isso, atravesou o corredor e cumprimentou Carina, a recepcionista da Biblioteca, que estava ao telefone, quando passou por ela em direção a sala de recebimentos.
-Olá Carina! Forçou um sorriso, mesmo não gostando da mulher, baixinha e sempre sorridente. Quem é tão feliz assim? A mal educada não se dignou a responder, então suspirou fundo e foi a sala. Chegando lá percebeu que alguém fez a sua tarefa favorita, pegou os livros para guardar, antes que ela tivesse oportunidade.
Quarta-feira e o bilhete a orientava de forma delicada para que fosse até sua padaria favorita, pois está estava com rosquinhas na promoção. Olhou para o relógio e decidiu ir mais tarde. Na quinta-feira, o bilhete dizia que seus olhos estavam lindos como sempre, porém pareciam perdidos. Ela deveria tentar ir à pracinha ver as crianças brincar. Na sexta-feira o bilhete não veio acompanhado de um elogio, tudo que estava escrito parecia ser uma ordem desesperada. “Se dirija a qualquer lugar que você sinta falta, pode ser a prefeitura ou sua antiga escola”. A bibliotecária franziu os olhos sem entender o porque da insistência desse seu amigo de longa data, sabia que havia ignorado bilhetes de mais durante a semana, e seria falta de educação ignorar mais esse. Decidiu então ir visitá-lo, afinal todos esses bilhetes faziam com que ela sentisse saudades. Pegou seu blazer preto, sua bolsa e se dirigiu a porta da frente. Avisou Carina que não iria demorar, e mais uma vez foi ignorada. Quanta mais se aproximava da porta, mais longe parecia que está ficava. Virou para trás e disse à Carina que precisava sair, recebeu novamente o silêncio. Sentou-se na recepção, a dor de cabeça estava presente mais uma vez. O dia chegou ao fim e no sábado, ao invés de um bilhete recebeu uma visita.  Era o assinante dos bilhetes. Que com um semblante triste falou:
-Olá meu anjo, não conseguiu sair não é mesmo? Ficou olhando pra ela, com os olhos compreensivos como sempre.
-Não entendo realmente, eu tentei. Você pode me chamar de louca, mas a porta se afastava de mim, cada vez que tentava ultrapassá-la. O que está acontecendo?
Ele a olhou com aquele olhar de sempre e proferiu: Venha, vamos dar uma volta.
Dessa vez, de mãos dadas com seu amigo, ela conseguiu sair da biblioteca. Ele a levou para um lugar onde ela não ia a muito tempo, mas que quando mais se aproximava, mais sentia uma espécie de “puxão”. Ela foi se aproximando de uma lápide nova, de concreto escuro. Ao ler o nome escrito na lápide, sentiu seu corpo todo tremer. “1978 – 2016 – Catherine Fish”.
- Acho que é a hora de eu ir embora não é? Qual o caminho devo seguir?

-Apenas siga em frente. 

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