Não, eu não sou louca

03:57

Todos os dias, a todo momento, em algum lugar do mundo uma mulher está sendo chamada de louca. Sabe o que é pior? Não é necessária uma pesquisa IBGE para confirmar essa afirmação. Basta ser mulher e ter uma vida sexual ativa ou estar aberta a relacionamentos.




A gente cresce rodeadas por expectativas. Precisamos nos vestir de determinada maneira, gostar de determinado esporte, estilo musical e literário. É como se a partir do momento que o médico diz "é menina!" , todo o roteiro de nossa vida estivesse traçado.

O machismo é um mal social, não me leve a mal, ele é pode ser tão nocivo ao homem quanto é para nós mulheres. Mas um homem não precisa ter medo de entrar em Uber a noite ou esperar um ônibus em uma parada vazia. É claro, além dos medos e cuidados óbvios de segurança necessários no Brasil.

Não bastasse toda violência que a mulher enfrenta cotidianamente, ainda é necessário lidar com as agressões emocionais e psicológicas. Quem nunca foi catalogada de "louca" ou "surtada" pelo ex namorado?

Aposto contigo, que em alguma experiência amorosa tu descobriu mentiras, talvez traições e ainda foi acusada de ser surtada. É praticamente um discurso pronto! A coisa é tão ridícula que passamos a acredita nisso. E meu bem, você não está sozinha. 

Você já ouviu falar do termo "gaslighting"? Os casos de abuso emocional são tão frequentes, mas tão frequentes que o filme Gaslight traz luz a criação desse termo por abordar no decorrer de toda a obra cenas de abuso emocional. 
O termo gaslighting diz respeito a quando um homem tenta desestabilizar uma mulher, fazendo a acreditar que é louca, surtada ou dramática. 


Não, não é drama

Nós demoramos a entender que uma pessoa que amamos muito e confiamos muito é capaz de nos afetar tão negativamente. É aí que mora o grande perigo. De acordo com a mega curioso.com, quando uma mulher está em um relacionamento amoroso e tem sua inteligência colocada em prova isso é um caso claro de gaslighting. A matéria ainda traz algumas observações importantes sobre traição, confiança e inseguranças. Afinal, é justamente nas inseguranças que o agressor encontra suas armas. 

Mas não pense que uma mulher é vítima de acusações do estilo apenas em relacionamentos amorosos. No trabalho, quando, assim como todo o universo criado pela divindade ou surgido da explosão, não quer participar de brincadeiras é porque é maluca e está de TPM. Aliás, quantas vezes um homem te acusou de estar de TPM simplesmente porque você não quis ser uma flor do campo com ele? Quantas vezes um homem te chamou de maluca porque você expôs seu pensamento? Quantas vezes disseram que você estava surtando simplesmente por expor seu ponto de vista?
Se você é mulher e está lendo isso, tenho a triste certeza de saber que você passou por cada uma dessas situações. E não, você não é maluca.


Por favor, não acredite nisso

Existe uma máxima que me parece bem apropriada: uma mentira passa a ser verdade desde que contada várias vezes. Então, depois de ser chamada de surtada, maluca e louca várias vezes, uma parte de você passa a desacreditar da própria sanidade mental. Você está sozinha, deitada na cama e refazendo seus passos. Tenta entender se realmente existem indícios de loucura, se o que fez-falou-sentiu realmente foi apenas um drama. Então você faz contas, cálcica se não está de TPM, tenta buscar um motivo, uma razão que a deixou nesse estado. E surpresa! Não há. Porque você não é o problema!

Não, garota! Tu não é o problema

A gente passa a acreditar que não é boa o suficiente. Que é a razão pela qual as coisas não dão certo. Seja o relacionamento, seja o trabalho, seja a familia. É tanta pressão para ser de determinado jeito, para alcançar a aprovação que no meio do caminho a gente se perde. Perde a nossa real identidade. E é no meio dessa bagunça toda, de amor, sofrimento e frustrações que a gente passa a cogitar ser o problema.

É quando a insegurança bate, o desejo de estar errada porque só assim os problemas se resolveriam de maneira simples. Bastava admitir e eles sumiram. É nesse momento que a gente faz uma avaliação e acredita ser o problema. Mas não é. O problema está em quem faz a gente se sentir mal por ser quem é. O problema está em quem aponta o dedo e te chama de maluca, de surtada. O problema está em quem não sabe amar e usa as tuas inseguranças contra você mesma. 

Tá na hora de assumir o controle

Demora um tempo. Depende de cada mulher, de cada relacionamento. Cada uma tem seu próprio tempo. Mas leva um tempo. Uma hora a gente passa a ver que não é mais uma mulher inteira e sim uma sombra do que foi antes. 

Vai chegar o momento estranho que você vai sentar em frente a televisão, tentar escolher um filme pra assistir e vai falhar. E vai tentar pedir comida e não vai conseguir. Vai tentar namorar outras pessoas e não vai conseguir porque você perdeu o sentido de escolha. Você abriu mão de si mesma pelo outro e nesse momento vai se perguntar se é vítima ou cúmplice dessa coisa horrível que fizeram contigo. E não vai ter a resposta.
Mas tu vai precisar assumir o controle. Como diria Pitty, citando a música Descontruindo Amélia "vira a mesa, assume o jogo". Toma uma decisão sozinha, qualquer uma. Vai na padaria e escolhe um biscoito diferente. "Faz questão de se cuidar", faz algo que te agrade. Uma hidratação no cabelo ou uma soneca porque quer e não por que a alma tá doendo. 

É uma recuperação. É um processo cheio de etapas. Um passo de cada vez. No final dessa reabilitação o que a gente espera é encontrar-se novamente com a mulher que a gente é. 

Crédito fotos: eusemfeonteira.com
Crédito infográfico: dicasdemulher.com.br

Você também pode gostar

0 comentários